Hoje o parlamento português fez duas coisas na mesma sessão. Endureceu as leis de imigração e rejeitou a proposta para criminalizar o racismo. Na mesma tarde. Com as mesmas mãos. Se fosse uma série, ninguém acreditava no argumento.
A proposta vinha de mais de 80 coletivos e 34.800 pessoas que assinaram com nome e bilhete de identidade. Pediam uma coisa simples: que o insulto racista fosse crime mesmo quando acontece no patamar do prédio, no balcão do centro de saúde, na porta do senhorio. Porque a lei actual só pune o racismo quando é público. Quando há câmara. Quando há palco. A vizinha que te chama o que te chama no escadas do pré dio não conta. A imobiliária que te recusa pelo apelido não conta. O chefe que te manda para a cozinha para não assustares os clientes não conta. Em Portugal, o racismo só existe quando alguém está a filmar. Quando ninguém filma, é ruído de fundo.
O parlamento ouviu todas estas vozes e respondeu com silêncio. E na mesma tarde abriu outra gaveta e apertou as regras para quem quer viver cá. Mais documentos. Mais prazos. Mais muros. Mensagem recebida: queremos os vossos braços mas não queremos as vossas vidas. Queremos a empregada mas não a queremos vizinha. Os nossos avós foram para França limpar casas de banho. Foram para a Alemanha construir fábricas. Foram para o Luxemburgo apanhar frio em obras sem contrato. Sofreram insultos xenofóbicos. Sofreram saudade. Mandaram dinheiro para cá todos os meses para que os filhos tivessem mais. E agora esses filhos e esses netos olham para quem faz exactamente o mesmo e dizem: volta para a tua terra. A memória deste país cabe num envelope de Western Union. Recebemos remessas durante décadas. E cuspimos em quem as manda.
Lyndon B. Johnson disse-o em 1960: dá-lhe alguém para desprezar e ele esvazia os bolsos por ti. Sessenta e seis anos depois, a fórmula funciona como se fosse nova. Dois terços dos portugueses associam imigração a criminalidade. A criminalidade está em mínimos históricos. A percepção é fabricada. O medo é encomendado. E quem vota com medo não vota para que a sua vida melhore. Vota para que a vida de alguém piore.
Porque o que esta gente quer, no fundo, é o Estado Social só para si. Reforma paga. Hospital público. Escola gratuita. Mas só para a última geração branca que não emigrou. Os que vieram de fora servem para segurar o sistema que paga essas reformas, para cuidar dos velhos que os filhos não cuidam, para construir as casas que os netos não conseguem comprar. Servem como braços. Não servem como gente, como seres humanos dignos de cuidado.
Numa só noite no Porto registaram-se três ataques violentos contra imigrantes. A comissão que analisa queixas de racismo esteve parada mais de seis meses. Oitenta por cento dos imigrantes dizem ter sofrido discurso de ódio. Nos centros de saúde. Nos supermercados. No Instagram. No sítio onde se come e no sítio onde se reza. Oito em cada dez. Se isto fosse uma doença, declaravam emergência nacional. Mas como é racismo, declaram que é uma percepção exagerada e seguem para o próximo ponto da ordem de trabalhos.
O SNS está a colapsar. As urgências fecham. Os partos fazem-se em ambulâncias. As consultas demoram o tempo de uma gravidez inteira. Mas o problema, segundo quem grita mais alto, é o homem que veio do Bangladesh para trabalhar catorze horas numa cozinha por seiscentos euros. Ou a mulher que apanha fruta no Alentejo ao sol de quarenta graus. Ou o rapaz que te entrega a comida de bicicleta à chuva para que não saias do sofá. São eles que estão a roubar a vaga na urgência que fechou por falta de médicos que o governo não contratou. É aritmética criativa. Subtrai o imigrante e a urgência reabre por magia. Ninguém explica como, mas a explicação nunca foi o forte de quem vende medo. E o parlamento, nesta tarde bonita de junho, protegeu o conforto de quem manda.
Mas eu quero falar com quem leva com esta porta todos os dias. Tu. Que vieste de longe. Que carregas uma mala que pesa mais por dentro do que por fora. Que deixaste uma mãe, um rio, uma rua, uma forma de dizer bom dia que aqui ninguém entende. Tu que levantas andaimes, que fazes turnos de noite em armazéns sem janela, que cuidas de avós que não são teus com a paciência de quem sabe o que é ter saudades dos seus, e ao fim do dia ouves no autocarro uma palavra que te faz sentir que nada disto vale. Vale. Tudo isto vale. Não porque o parlamento o reconheça. Mas porque a comida que cozinhaste alimentou alguém. Porque a parede que levantaste vai durar mais do que o governo que recusou proteger-te. Porque o velho de quem cuidas vai lembrar-se das tuas mãos quando já não se lembrar do nome do primeiro-ministro. A tua avó chora de saudade e tu choras de cansaço e as duas lágrimas são a mesma á gua. E essa água é mais velha do que qualquer lei e mais forte do que qualquer voto. E um dia, neste país que tem a memória curta e o orgulho comprido, alguém vai olhar para ti e em vez de ver mão de obra vai ver gente. E nesse dia, que há de chegar, talvez o parlamento perceba que as pessoas que insultam à janela são as mesmas que lhes apanham a fruta, lhes entregam a encomenda e lhes seguram o país de pé. Até lá, faz o que sempre fizeste. Levanta-te. Sai de casa. Constrói. E se alguém te disser que não pertences, lembra-te: quem constrói pertence mais do que quem herda. E tu construíste.
